Setembro amarelo: por que falar sobre suicídio embota cada um de nós?

Em 30 de setembro, a Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam) promoveu o evento “Estresse no Judiciário, Protegendo a Vida”. O evento contou com a presença do diretor-geral, ministro Og Fernandes, do presidente da Comissão de Desenvolvimento Científico e Pedagógico, Eladio Lecey, e da secretária-geral, Cíntia Brunetta. Também participaram e especialistas como a psicóloga Marilda Lipp, o médico do Trabalho Andre Fusco e o psicólogo do STF Fábio Angelim.

Eles discutiram como apresentar meios que melhorem a rotina de trabalho dos magistrados e tragam soluções para transtornos mentais que acometem esses profissionais, mesmo quando têm que se colocar socialmente como exemplo de sanidade. “Temos, neste evento, a oportunidade de discutir um assunto que fica embotado em cada um de nós”, disse o ministro Og.

A psicóloga Marilda Lipp, que tem 27 livros publicados sobre estresse e problemas mentais, falou sobre estigmas, quando alguém percebe o outro de forma negativa por conta de um traço pessoal. Isso pode levar ao bullying em âmbito organizacional, mascarado pela dificuldade de as pessoas lidarem com um sofrimento, que, muitas vezes, é coletivo.

Leis que combatam o preconceito

Marilda Lipp relatou casos de pessoas que se recusaram a alugar um apartamento para quem sofre depressão. E mencionou a importância de o Judiciário estabelecer leis para conter esse tipo de preconceito – patrocinado, inclusive, por planos de saúde, quando estes se recusam a custear um tratamento adequado.

“A pessoa que sofre de uma doença mental nunca se livra do rótulo”, disse ela. “Não é como parar de fumar, quando se vira automaticamente ex-fumante”. A psicóloga cita que diversos líderes mundiais assumiram o posto com distúrbios mentais; o ex-presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln, por exemplo, teria diagnóstico de depressão. O problema afeta pessoas, indistintamente.

O diagnóstico nem sempre é claro no ambiente organizacional. “E até falar do assunto é complicado”, disse Marilda.  Oferecer apoio de forma incondicional é uma das medidas, assim como ser empático. Ela deu algumas dicas de como lidar com o problema: quando em conversas com os colegas, evitar expressões ou frases do tipo: “Sua vida não é tão ruim assim” ou “Você não quer realmente morrer”, bem como “Tudo vai passar”, pois não auxiliam nos processos de cura.

Realidade dos magistrados

A desembargadora Taís Ferraz, que é instrutora da Enfam, trouxe um pouco da realidade do magistrado no contexto do trabalho. A rotina incomum é a cobrança por constante atualização, expectativa de progressão na carreira, cobrança social em ser exemplo e ter coerência nas decisões que proferem. Questões que se tornam mais complexas em um contexto de isolamento social.

O psicólogo Fábio Angelim explicou que todo um trabalho está sendo feito neste contexto de pandemia para identificar situações de risco entre servidores do STJ. Sabe-se que alguns grupos ficam mais expostos, como aposentados ou mulheres com filhos em idade escolar. Ele chamou atenção para a necessidade de apurar o contexto em que as situações são deflagradas.

Para o médico do trabalho André Fusco, existe uma incompreensão em conceitos de saúde, como a que envolve ter um equilíbrio entre vida pessoal e profissional, como se uma necessariamente tivesse que ser ruim e outra boa. Também destacou o falso entendimento de que, se o paciente adoeceu, é porque não se cuidou adequadamente.

Ele explicou, por meio da psicanálise, que quando nos defrontamos com um problema e não damos conta dele, a tendência natural é se afastar e, conforme determinadas situações, adotar posturas de enfrentamento, muitas vezes atípicas.

Webinário avaliou em que aspectos rotina de magistrados se assemelha a trabalhadores da construção civil de Nova York nos anos 1930 (foto-montagem)

Trabalhadores de Nova York

O médico usou como exemplo os trabalhadores na construção de grandes prédios em Nova York no século passado, quando esses debruçavam em vigas finas na hora do almoço, ignorando os próprios riscos de altura. “Na realidade, o que esses profissionais fazem é transformar um enfrentamento em um valor”, disse ele. E se ali chegar um médico falando dos riscos de altura, este será considerado inconveniente e banido do contexto.

Outro exemplo nesse sentido, de criação de enfrentamentos, é a masculinização do mercado de trabalho para a mulher, que precisa adotar muitos mecanismos de compensação para valorizar um risco, que é deixar o bebê em casa precocemente. “Elas voltam muitas vezes antes do tempo previsto, para mostrar sua dedicação ao trabalho”, afirmou.

Fusco explicou que há uma tendência natural nos casos de transtorno mental em buscar a responsabilização da vítima, quando a falha está no contexto. Nos casos em que os próprios trabalhadores dos prédios em construção caem de grandes alturas, a tendência é buscar a culpa do trabalhador e muitas vezes as causas desconexas ao problema, como especular se não foi um caso de labirintite ou excesso de bebida. “Quanto mais grave um sofrimento, mais a gente responsabiliza a vítima e menos a gente olha para o contexto”, disse ele. É o caso do estupro, em que se responsabiliza a mulher pelo uso da minissaia.

É por isso, segundo ele, que há uma tendência recorrente de, quando alguém adoece no ambiente organizacional, outros especularem sobre como anda sua vida pessoal, como se fossem questões necessariamente conexas.

Empatia dói

Para o médico, a única coisa que, muitas vezes, temos em comum com o outro, em casos de transtorno mental, é o contexto de trabalho, e enfrentar isso nos traz grande sofrimento. O resultado primordial é o constrangimento para quem está adoecendo e, ainda, a criminalização da doença.

A postura dos nossos colegas é insistir com teses como “Nossa, você não está bem, não deveria voltar ao trabalho”; “Quando uma pessoa está doente, o que ela precisa é ser acolhida”, porém, o que está em curso é um sofrimento onde todos não querem se lembrar que compartilham o mesmo contexto. Em relação à criminalização da doença, o próprio gestor tende a investigar a vida da pessoa que sofre o transtorno, evitando assumir responsabilidade pelo problema do trabalhador, quando, muitas vezes, é também paciente.

A avaliação psicodinâmica do trabalho oferece meios para assegurar melhor qualidade de vida ao trabalhador. Isso se torna mais importante em organizações que precisam gerar valor. “Se uma empresa não tem valor como proposta, pouco pode ser oferecido a seus trabalhadores”, conclui Fusco.

O psicólogo do STJ Fábio Angelim falou sobre os impactos da pandemia na saúde mental

Ações que podem ser feitas para contornar o problema:

  • prevenir o transtorno mental com políticas saudáveis;
  • criar ações de desmistificação;
  • ser capaz de identificar os sinais de transtorno mental no colaborador;
  • oferecer apoio, orientação e recursos;
  • ter um plano de readaptação para os que retornam após a licença médica;
  • promover leis de proteção ao portador de transtorno mental;
  • promover ações de esclarecimento do transtorno mental na comunidade;
  • inserir psicoterapia e o treino de controle de estresse no ambiente organizacional; e
  • evitar especular sobre a vida pessoal do trabalhador, como causa do afastamento.

O webinário “Estresse no Judiciário, Protegendo a Vida” está disponível na íntegra no canal da Enfam no YouTube