Desembargador relata experiência de lidar com usuários de crack

Como forma de incentivar os juízes recém-empossados dos Tribunais de Justiça da Bahia (TJBA) e do Mato Grosso (TJMT) a trabalhar em prol das populações desassistidas, o desembargador Antonio Carlos Malheiros, do TJ paulista (TJSP), contou sua trajetória profissional dedicada às causas sociais nas favelas e ruas de São Paulo. A palestra aconteceu nesta terça-feira (15/10) durante o VI curso de Iniciação Funcional para Magistrados, da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados- Ministro Sálvio de Figueiredo (Enfam).

Malheiros relatou situações vivenciadas nas ruas da capital paulista, quando passou a trabalhar para conseguir tratamento para crianças e adolescentes que sofreram abusos sexuais e também para viciados em drogas.  O desembargador ressaltou as dificuldades para lidar com essas populações e confessou ter pensado em desistir – mas não levou a ideia adiante frente à necessidade de ajuda dos jovens marginalizados:

 “Quando vi um menino de 10 anos, no chão, muito magro, com uma doença de pele e ofegante devido o consumo de crack, eu me ajoelhei diante dele e percebi que os dez dedos da mão estavam sangrando. O estado de alucinação fez com ele cavasse um buraco imaginário no asfalto até perder as unhas. Naquele momento eu perdi perdão. ‘Eu Estado, eu poder público, eu sociedade civil, cheguei muito tarde à sua vida! Me perdoa!’ Depois disso nunca mais saí das ruas”, contou.

A internação compulsória de usuários de drogas é defendida pelo desembargador somente nos casos em que a vítima corra risco eminente de vida. Para ele, a internação sem um acompanhamento adequado não traz resultados.  Malheiros também ressaltou a necessidade do governo federal desenvolver políticas públicas mais eficientes de combate ao tráfico de drogas, inclusive com a participação do Exército no patrulhamento de fronteiras.

Ao final da palestra, o magistrado fez um apelo aos juízes que estão começando a carreira na magistratura: “saiam de seus gabinetes e vão às ruas para exercer o verdadeiro compromisso social”.