Especialista diz a novos juízes que racismo está naturalizado na sociedade

O racismo ainda permeia toda a cultura brasileira, mesmo quando não notámos sua ocorrência. A afirmação foi do economista Mário Lisboa Theodoro, consultor legislativo do Senado e ex-secretário executivo de Políticas de Promoção de Igualdade Racial da Presidência da República, que coordenou a oficina de políticas raciais do VII Curso de Iniciação Funcional para Magistrados da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados – Ministro Sálvio de Figueiredo [Enfam]. Para Lisboa, não é possível entender a formação da sociedade brasileira sem levar em conta a discriminação racial.

O economista lembrou que a diversidade cultural e racial do Brasil é uma das maiores do mundo e “um dos nossos maiores tesouros”. “Temos colônias de alemães, italianos, japoneses e de várias outras nacionalidades. Temos influências de diversas etnias africanas, europeias e indígenas. Mas, infelizmente, ainda não conseguimos chegar a uma verdadeira igualdade social”, salientou.

A naturalização da discriminação, prosseguiu, é algo com o que o magistrado deve estar atento. “Penas alternativas e outros benefícios legais são proporcionalmente menos concedidos para condenados negros e essa população é proporcionalmente maior nas prisões”, destacou. Mário Lisboa afirma que o racismo é um velho conhecido no Brasil, mas muitos, inclusive juízes, tendem a ignorá-lo ou considerá-lo um problema menor. O economista apresentou outros dados alarmantes, como o fato do número de homicídios estar em queda no Brasil, mas ainda crescendo entre jovens negros.

Segundo o economista, a desigualdade social do país – fator apontado por muitos como a verdadeira causa da discriminação – é muito próxima à racial. “O Brasil foi um dos países que mais cresceu economicamente no século XX, mas continuou sendo um dos mais desiguais do mundo, no que se refere a raças”, disse. O problema do racismo, complementou, não se resolve só com crescimento econômico, mas com políticas afirmativas como as cotas em universidades.

Carlos Alberto Ferreira, professor de Serviço Social da Universidade Católica de Brasília, que também participou da oficina, acrescentou que o Brasil tem 400 anos de escravidão e que isso “não se resolve com uma canetada”. Para o professor, para diminuir a diferença entre brancos e negros, é necessário um trabalho de reflexão e reconstrução constante, especialmente dentro do Poder Judiciário.

O Curso de Iniciação Funcional é uma iniciativa da Enfam que visa qualificar novos juízes em temas relevantes para o Judiciário. Nesta VII edição, a qualificação reúne 22 juízes recém-empossados no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) e outros 10 do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC).