Seminário discute desigualdades estruturais de gênero e caminhos para equidade

Evento reúne especialistas na UnB para debater liderança feminina, violências institucionais e o trabalho invisível do cuidado

A Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam), em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), por meio do grupo de estudo da Psicodinâmica do Trabalho Feminino (Psitrafem), realiza nesta quinta-feira (16) o seminário Mulheres e Trabalho: desafios e perspectivas no Brasil. Em pauta, a centralidade das mulheres no mundo do trabalho, ainda marcada por desigualdades históricas, sobrecarga e invisibilidade.

O encontro reúne pesquisadoras, magistradas e representantes do Estado para discutir os desafios contemporâneos da equidade de gênero no Brasil. A programação evidencia que, apesar dos avanços institucionais, persistem barreiras estruturais que limitam o acesso das mulheres aos espaços de poder e reconhecimento profissional.

A abertura do evento foi conduzida por nomes centrais no debate sobre trabalho e gênero, incluindo a professora Carla Antloga, referência na psicodinâmica do trabalho feminino no país. Em sua trajetória acadêmica, Antloga tem destacado como as condições de trabalho impactam subjetivamente as mulheres, especialmente quando atravessadas por desigualdades de gênero, raça e classe.

Esse enfoque dialoga diretamente com dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontam que as mulheres brasileiras continuam enfrentando uma dupla jornada: além do trabalho remunerado, dedicam, em média, quase o dobro do tempo aos afazeres domésticos e cuidados com outras pessoas. Mulheres têm mais barreiras e ganham menos que 80% dos salários de homens. Esse dado é do IBGE e também reflete que, em 2024, apenas 49,1% das mulheres estavam empregadas, contra 68,8% dos homens. Essa sobrecarga tem impactos diretos na saúde mental, na progressão de carreira e na ocupação de cargos de liderança.

Representando a Enfam, a secretária de Gestão Acadêmica e de Formação, Mariana Rocha, afirmou que o tema mulheres e trabalho é urgente em vários setores. “Temos um compromisso de agenda com este tema e estamos atuando, especialmente na magistratura, com foco na desigualdade de gênero”, destacou.

A representante da Defensoria Pública, Liana Dani, reforçou a necessidade de trabalho sobre o cuidado não remunerado e com a precarização de direitos e vantagens para o Estado brasileiro. “A Defensoria Pública da União tem um trabalho itinerante em comunidades fomentando orientações e educação de mulheres em situação de vulnerabilidade”, pontuou.

Já para a professora do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Direito da UnB, Inez Lopes, é necessário tratar da mulher no ambiente do trabalho formal competitivo. “A inserção da mulher em profissões fora do âmbito do cuidado ainda é desigual, especialmente nos cargos de liderança. Precisamos ter um olhar avançado e atento para essa inserção”, refletiu.

Por fim, a professora e idealizadora do Psitrafem, grupo que celebra dez anos de existência em 2026, Carla Antloga, destacou a importância de um trabalho coletivo e união a fim de avançar a presença feminina em vários aspectos sociais e profissionais. “O Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicodinâmica do Trabalho Feminino se dedica a ações para melhoria das condições de trabalho para as mulheres. É necessário, cada vez mais, trazer os impactos psíquicos dessa dinâmica, como o sentimento de culpa, a sobrecarga emocional e o conflito entre vida profissional e pessoal. A ausência de políticas públicas robustas voltadas ao cuidado reforça ainda mais esse cenário de desigualdade”, destacou Antloga.

Seminário
O seminário evidencia que a discussão sobre mulheres e trabalho não se limita à inclusão numérica no mercado, mas exige uma revisão profunda das estruturas que sustentam desigualdades. Ao articular academia, sistema de justiça e políticas públicas, o evento aponta para a necessidade de soluções intersetoriais que reconheçam o trabalho feminino em sua totalidade como condição essencial para uma sociedade mais justa.

O evento continua no período da tarde, com transmissão pelo canal da Enfam no YouTube.

Foto: Myke Sena/DPU

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