Segunda parte de seminário com magistradas e especialistas debate gênero, raça e cuidado

Painéis ocorreram na Universidade de Brasília

A segunda parte do seminário Mulheres e Trabalho: desafios e perspectivas no Brasil ocorreu na tarde desta quinta-feira (16). O evento foi realizado pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam), em parceria com o grupo de estudo da Psicodinâmica do Trabalho Feminino (Psitrafem), na Universidade de Brasília (UnB).

O painel Estado, Violências e Equidade: gênero e raça nas instituições, coordenado pela professora Carla Antloga, reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir como desigualdades estruturais atravessam as instituições brasileiras, impactando diretamente a vida das mulheres.

Abrindo o debate, a magistrada Ítala Colnaghi, do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO), trouxe uma análise histórica e estrutural da violência de gênero no país. “Não podemos falar em violência de gênero sem falar de raça, classe social e história”, afirmou. Segundo a juíza, o passado escravocrata brasileiro ainda molda as desigualdades atuais, refletindo-se em dados alarmantes: mais de 60% das vítimas de feminicídio e da população carcerária são pessoas negras. Ítala destacou que “a mulher negra não é sinônimo de vulnerabilidade; E sim símbolo de resistência e protagonismo.”

Na sequência, a defensora pública e presidente da Associação das Mulheres Defensoras Públicas do Brasil (Amdefa), Jeniffer Rodrigues, abordou a desigualdade dentro das instituições públicas. “Ficamos à mercê da ética dos gestores e não podemos ficar nessa posição”, afirmou.

A policial militar Jurema Helena reforçou a importância do debate contínuo sobre o tema. “Precisamos colocar esse tipo de discussão à mesa para que saiam estratégias e ideias”, disse. Ela destacou os desafios enfrentados pelas mulheres no ambiente policial, onde ainda são minoria, e alertou para a subnotificação dos casos de violência: cerca de 70% das mulheres não buscam apoio estatal em situações de violência doméstica.

Representando a Caixa Seguridade, Rafaela Cordeiro trouxe a perspectiva do setor corporativo. “Falar de mulheres é falar do nosso dia a dia”, afirmou. Ela apresentou iniciativas como o encontro Mulheres Seguras e ações voltadas ao acolhimento de funcionárias em situação de violência, incluindo adaptações em produtos como o seguro residencial.

Encerrando o painel, a policial militar Daniele Alcântara destacou a distância entre a legislação e a prática. “Temos um desenho formal de leis que funciona na teoria, mas na prática, há falhas humanas”, afirmou. Ela apresentou dados sobre a rede de atendimento no Distrito Federal, que cresceu significativamente: de 14 para 31 unidades, entre 2023 e 2025. Além disso, mais de 1.800 atendimentos foram realizados pelo comitê de proteção, em dois anos.

A Política do Cuidado: maternidade, infância e saúde
O último debate do evento tratou da Política do Cuidado: maternidade, infância e saúde, coordenado pela professora Renata Monteiro. A pesquisadora Renata Garutti iniciou destacando os avanços históricos. “Momentos como esse seriam impensáveis há 50 anos”, afirmou, lembrando que hoje há mais espaço para discutir maternidade e violência sem os estigmas do passado. Ela ressaltou que a criação dos filhos não é responsabilidade exclusiva das mães, mas de toda a sociedade.

Natália Veloso, representante do Ministério das Mulheres, apresentou seu estudo comparativo entre dois grupos: mulheres que foram mães jovens, em sua maioria negras, de baixa renda e escolaridade; e mulheres que adiaram a maternidade, geralmente brancas, com maior escolaridade e melhores condições socioeconômicas. Representando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a juíza Cláudia Catafesta trouxe a perspectiva jurídica da maternidade. Ela abordou como decisões judiciais e processos têm lidado com as demandas relacionadas à maternidade.

Por fim, a defensora pública Liana Dani, da Defensoria Pública da União (DPU), diferenciou os conceitos de maternidade e maternalismo e destacou a relevância da Política Nacional de Cuidados. Ela enfatizou as desigualdades de gênero, raça e classe no trabalho não remunerado e na dificuldade de inserção no mercado de trabalho para mulheres com filhos. Essa desigualdade também se reflete na aposentadoria: apenas 33,4% das mulheres conseguem se aposentar, evidenciando um ciclo de vulnerabilidade que se perpetua ao longo da vida.

16/4/2026 • Seminário Mulheres e Trabalho: Desafios e Perspectivas no Brasil • Brasília/DF